O Novo Pixinguinha



A Funarte divulgou os artistas selecionados para a reedição do Projeto Pixinguinha, programa de caravanas musicais que por 15 anos correu o Brasil, até ser interrompido pela última vez, em 1997. Cento e trinta e quatro cantores, compositores, instrumentistas ou grupos escolhidos entre mais de 1.500 inscritos de todo o Brasil formam uma verdadeira seleção da MPB. Kátia Freitas e Nonato Luiz representarão o Ceará.


Batizada pelo grande gênio do choro, está de volta a grande andança musical. Uma das mais bem-sucedidas iniciativas de divulgação da música brasileira e formação de platéias pelo próprio país, o Projeto Pixinguinha está de volta. O retorno da empreitada foi anunciado em janeiro deste ano pela Fundação Nacional de Arte – Funarte, com início previsto para julho. No entanto, somente esta quarta-feira a Fundação divulgou os artistas selecionados para as próximas caravanas musicais que, mantendo o espírito do projeto original, promoverá um intercâmbio entre valores mais e menos conhecidos pelo grande público.

Idealizado pelo pesquisador e crítico musical Hermínio Bello de Carvalho e iniciado pela Funarte em 1977, o Projeto Pixinguinha promoveu continuamente shows itinerantes, até 1989, quando foi interrompido, para retornar em três oportunidades, nos anos 90. Ao todo, foram mais de 3 mil shows, com mais de 700 intérpretes, em todos os estados, sempre promovendo o encontro de nomes consagrados com artistas em busca de espaço. Ao longo das diversas edições, houve encontros marcantes, como os de João Bosco e Clementina de Jesus e de Nana Caymmi e Ivan Lins.

Além do retorno à promoção de shows, com investimento de R$ 3 milhões previsto somente para este ano (50% do Ministério da Cultura e 50% pela Petrobras), a Funarte anuncia a digitalização dos registros dos antigos shows do projeto. Já a primeira caravana do novo Pixinguinha será formada por Ná Ozzeti, Jards Macalé, Nó em Pingo D´Água e Dona Selma do Coco. Estréiam no Rio de Janeiro, em 1º de setembro, e passam por Belo Horizonte (3/09), Ipatinga (5/09), Vitória (7/09), São Paulo (9/09), Porto Alegre (11/09), Florianópolis (13/09) e Curitiba (15/09). Não por coincidência, Ná Ozzeti e Macalé (que chegou a ser preso por militares em um dos shows do Pixinguinha, em 1978) faziam parte da última caravana de 1997, quando o projeto foi abortado, mesmo com os preparativos adiantados para mais uma série de shows. Dívida agora quitada com os artistas.

Com as cantoras Ellen de Lima (RJ) e Elizah (RS), o violonista Caio Cezar (PE) e o tradicionalíssimo regional carioca Época de Ouro, a segunda caravana terá início em 2 de setembro, em Salvador, e se encerrará em Fortaleza, no dia 15 do mesmo mês (às 21h, no Centro Dragão do Mar). O formato é fixo, com quatro artistas ou grupos por caravana, visitando oito cidades, fazendo sempre um show coletivo em cada uma. Até novembro de 2005 serão quatro caravanas por mês, totalizando 16 grupos ou artistas, que, segundo a organização, terão sempre seus shows marcados em regiões diferentes da de origem, de modo a favorecer o intercâmbio de platéias. Para isso, informa-se, os ingressos serão cobrados a R$ 5,00 e também haverá shows gratuitos.

NOVA EDIÇÃO – Os selecionados para o novo Projeto Pixinguinha foram divulgados em solenidade com a presença do presidente da Funarte, Antonio Grassi, e do presidente da Comissão de Seleção, o jornalista e pesquisador João Máximo. Houve duas modalidades de inscrição: por um edital, aberto à participação de qualquer músico brasileiro, e por indicação direta das secretarias de Cultura dos diversos estados e de alguns dos maiores municípios.

Pelo edital, foram realizadas 1.216 inscrições, com cada pleiteante enviando um CD contendo no mínimo seis músicas de autoria ou em interpretação própria. Sobre esse material se debruçou a comissão formada ainda pelos jornalistas Aílton Magioli, do Estado de Minas, Carlos Calado, da Folha de S. Paulo, Lauro Lisboa, do O Estado de S. Paulo, Mauro Ferreira, do carioca O Dia, e João Máximo, do O Globo. Nessa categoria, foram selecionados 90 artistas ou grupos.

De acordo com o anúncio oficial, a comissão definiu os selecionados com base em critérios como a presença de “artistas consagrados, ainda em atividade, cuja presença valoriza o Projeto”; “artistas ainda não consagrados nacionalmente de indiscutível talento, cuja carreira pode ser valorizada pelo Projeto”; “trabalhos tradicionais em leituras novas ou inéditos ligados às tradições brasileiras”; “artistas que possam levar, de um ponto a outro do país, culturas musicais regionais não devidamente difundidas fora dos respectivos centros”.

Já o júri responsável pela seleção dos artistas indicados pelas secretarias foi formado pelos jornalistas Hagamenon Brito Nogueira, José Telles da Silva Filho e Juarez Antônio Bittencourt Fonseca, especializados em MPB. Os selecionados dessa forma somaram 44 artistas ou grupos, divididos em três categorias, escolhidos entre aproximadamente 300 inscritos. Cada secretaria pôde fazer no máximo 10 indicações.

Segundo o diretor de ação cultural do Centro Dragão do Mar, Luís Carlos Sabadia, a Secult-CE indicou 10 nomes à Funarte, atendendo a critérios sugeridos pela própria Fundação. “Solicitaram músicos individuais, que fossem ao mesmo tempo autor e cantor, ou que pudesse se apresentar com no máximo mais um músico. Diante disso, nós, do Dragão, sentamos com a equipe da Secult e pensamos uma lista desses nomes. Se você parar pra pensar, não é muito fácil compor aqui dentro uma lista de pessoas que tenham um trabalho autoral, que sejam também interpretes e com gravado, que precisava ser mandado”, detalha, apontando que foi feita uma primeira lista com 30 nomes.

“Daí ligamos para os artistas, perguntando da possibilidade de fazerem apresentações solo. Aos que diziam que não podiam, recomendamos a inscrição normal, pelo edital”, afirma Sabadia. Ao cabo do processo, a Secult indicou, além do escolhido Nonato Luiz, Carlinhos Patriolino, Eudes Fraga, Idson Ricart, David Duarte, Myrlla Muniz, Fátima Santos, Luizinho Duarte, Dihelson Mendonça e Waldonys.

Dalwton Moura
Da Editoria de Caderno 3
Diário do Nordeste
21/8/2004

 


  Nonato Luiz: nonato@nonatoluiz.com.br Forma Criativa