Violão Nordestino


Poesia nordestina ao violão, o novo disco do cearense Nonato Luiz, Baião Erudito, é uma grande homenagem a Luiz Gonzaga e ao parceiro dele, Humberto Teixeira. Em turnê de lançamento, que até o final terá passado por 13 Estados, o mestre violonista chega a Salvador para show no Teatro Acbeu, Corredor da Vitória, hoje, as 20 horas. E melhor: a apresentação é gratuita.

Sertão adentro, a musica do rei do baião e do célebre parceiro sempre ajudou a esquentar as fogueiras juninas, a fermentar o licor e a levantar o barro do chão, mas, muito mais que isso, foi fundo na essência do nordeste. Olhar o que se aprofunda nas sobre as coisas da região, o ultimo disco de Nonato Luiz absorve a obra dos dois compositores aquilo que esta na raiz do xote e do xaxado, uma beleza que nunca seca.

Nonato traz para seu violão a marcação do baixo, anotando os dois tempos atravessados do baião, uma pulsação mântrica. Evidencia, nos arranjos, os modos melódicos nordestinos, em um notável zelo pela cultura do local, lapidando qualquer excesso de interpretação. Maduro e equilibrado, Nonato mostra o virtuosismo apenas na fluência da execução violonística e não em malabarismos instrumentais.

A esperança, um imenso mar também esta presente na melodiosa paisagem da seca, bem descrita em Um Outro Baião, que Nonato fez em homenagem ao mestre Lua. Da crença na vida, também brota o amor, quase visível na interpretação do violonista para Dona dos Teus Olhos e Benzim, ambas de Humberto Teixeira.

O resultado sonoro do Álbum é límpido tecnicamente e com uma enorme clareza de idéias. Nonato Luiz soube a medida certa entre a estilização de um repertório popular, com canções de porte como Asa Branca (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira) e Vem Morena (Luiz Gonzaga / Zé Dantas), e a manutenção de sua raiz sonora.

Daí a erudição do novo disco do violonista, que vai muito além da mera adaptação deste repertório para o universo camerístico. Aparece também no aprofundamento ainda maior na cultura de um povo e de uma região, condensando-a em poesia.

ROTA DO BAIÃO – Nonato já havia gravado a obra do filho dileto de Januário em outra ocasião. Lançou em 1994, o disco Nonato Luiz Interpreta Luiz Gonzaga. Cearense de Lavras da Mangabeira, o violonista teve a influência marcada pelas canções do mestre Lua, pernambucano de Exu, e de seu conterrâneo cearense Humberto Teixeira.

Em Baião Erudito, o músico marca a volta dos sons primordiais da terra natal, depois de ter interpretado clássicos da seresta brasileira em Violão Serenata, de 1996, do chorinho em Choro Madeira e de, mais recentemente, em 2000, ter feito uma releitura de canções dos Beatles.

Nesta turnê, Nonato já passou por Curitiba, Jaguará do Sul, Florianópolis, Natal e Fortaleza. Agora é a vez dos baianos da capital, que poderão entrar no sertão com o violão do cearense. Ele é o tipo de músico capaz de fazer a música soar perfeita em todas as interpretações, principalmente porque não se mostra preocupado em extrapolar limites técnicos, mas sim em deixar fluir a emoção.

Por LUCIANO AGUIAR.
Jornal A TARDE – CADERNO 2 – SALVADOR, quarta-feira, 26/01/05.

 
  Nonato Luiz: nonato@nonatoluiz.com.br Forma Criativa