Violão sem Barreiras

O cearense Nonato Luiz lança CD, amanhã, no Teatro Acbeu
Giovanna Castro

No disco “Baião erudito”, Nonato Luiz usa o violão para homenagear a rica parceria entre Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga

Quando o cearense Nonato Luiz decidiu que o instrumento que o acompanharia na vida artística seria o violão, trilhou o caminho natural do ofício interpretando obras de grandes compositores como o espanhol Andre Segovia e os brasileiros Canhoto, Dilermando Reis, Garoto e Baden Powell. Anos depois, ávido por acrescentar mais peças ao repertório, passou a transcrever canções da MPB adaptando-as ao toque das cordas. O resultado do trabalho, iniciado há cerca de duas décadas, está demonstrado no CD Baião erudito, que será lançado em Salvador amanhã, a partir das 20h, no Teatro Acbeu (Corredor da Vitória). A entrada é franca.

Nesse disco - o 27º da carreira -, Nonato toma o violão para homenagear a rica parceria entre Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, fonte de clássicos como Asa branca, Juazeiro, Assum preto, Baião de dois. Todas essas canções estão registradas, além de outros belos representantes do gênero nordestino, como Adeus Maria Fulô (Sivuca/Humberto Teixeira), A volta da Asa branca (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), Vem morena (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), Fogo pagô (Sivuca/Humberto Teixeira), Algodão (Luiz Gonzaga), Dono dos teus olhos (Humberto Teixeira) e Xandusinha (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira).

Única composição de Nonato gravada nesse disco, Um outro baião rendeu elogios da atriz Denise Dummont, fiha de Humberto Teixeira. "Que lindo! Uma homenagem com uma pitada de Qui nem jiló. Nada de amargo aí...", escreveu Denise no encarte do CD. "O violão de Nonato Luiz é, para mim, uma fonte inesgotável de emoções, a começar, é claro, pela simples virtuosidade do seu talento e técnica. Daí em diante vem tudo, paixão, delicadeza, energia, sensualidade, tristeza e, sobretudo, alegria", continua.

Luiz já fez dois discos em homenagem ao rei do baião, mas esta é a primeira vez que toca sozinho. "Acho que fico mais inteiro assim", considera o artista, que conta apenas com a participação de Dominguinhos em uma das faixas. Ele diz que escolheu essas 16 canções justamente por serem mais facilmente adaptáveis ao violão. "São as que ficaram mais confortáveis para tocar, as que chegaram mais próximas à linguagem do meu instrumento", resume o artista, dono de uma carreira internacional, tendo gravado um tributo a Pablo Picasso, ao lado de Mercedes Sosa, Paco de Lucia e Rafael Alberti.

O trabalho de transcrição das peças desse CD para as partituras consumiu nove meses de dedicação do músico. Ele admite que soltou a imaginação ao elaborar cada um dos arranjos, mas não fugiu à responsabilidade de manter a essência das canções. "Não deixa de ser uma composição, é uma nova leitura, uma nova linguagem, mas me preocupo em manter a melodia para que o público saiba o que está ouvindo, ainda que use outras tonalidades e afinações", esclarece.

Músico solicitado nacionalmente - participou de discos e shows com Chico Buarque, Fagner, Nara Leão, Luiz Gonzaga e Amelinha - Nonato Luiz tem mais de 700 composições e foi gravado por nomes importantes da MPB, como Nara Leão, Geraldo Azevedo, Belchior e Fagner. A opção pela música de Gonzagão em alguns de seus trabalhos, no entanto, tem a ver com as raízes nordestinas e a qualidade da obra do pernambucano ao lado de Humberto Teixeira. "É uma música altamente rica em harmonia e melodia, e também muito bem resolvida", analisa.

Mas a beleza musical também se presta a outro interesse do compositor, que é a quebra da barreira entre o que se convencionou chamar erudito e popular. Embora seja auto-didata, Luiz afirma - do alto de seus mais de 30 anos de carreira -, que ambos os gêneros possuem qualidades. "A música de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga é tão bem feita, bem composta, e cabe com tanta facilidade na alma do brasileiro que, bem tocada, passa a ser erudita. Quero mostrar que a música popular tem sua qualidade e sua riqueza".

Com livros publicados, nos quais reúne suas transcrições para violão, e constantemente convidado para fazer palestras, Nonato Luiz realiza dois concertos durante o Master Class da Universidade de Ganeisville, Flórida (EUA), em maio próximo. Detentor de vários prêmios (como o Sharp de Música concedido à canção Baião de rua, parceria sua com Fausto Nilo), Luiz ainda traz nesse CD uma ilustre apresentação do pesquisador Hermínio Bello de Carvalho. "Gasto todos os adjetivos, sem nenhum pudor, quando falo deste grande Nonato Luiz. Mas há que ressaltar uma extrema sensualidade com que tange as cordas de seu instrumento e a reverência com que trata os compositores que homenagea em seus discos". O CD será vendido no local do show por R$10, mas também pode ser adquirido no site www.nonatoluiz.com.br.

Parceiro fiel de Gonzagão

Cearense de Iguatu, Humberto Teixeira venceu, em 1934, um concurso de Carnaval ao lado de Ary Barroso. Nove anos depois, já com várias canções editadas e premiadas, diplomado em Direito, passou a dividir a profissão com as atividades musicais. Sua primeira música gravada foi Sinfonia do café, feita para o espetáculo Muiraquitã e apresentada no Theatro Musical do Rio de Janeiro.

Em 1945, conheceu Luiz Gonzaga, que procurava um letrista para ritmos nordestinos. No ano seguinte, lançou Baião, a primeira música em parceria com Gonzaga, que deu início a uma série de êxitos da dupla. Teve mais de 400 canções gravadas e, apesar do seu sucesso com o baião, também escreveu samba, marchas, xotes, sambas-canções e toadas.

Folha da Bahia

 
  Nonato Luiz: nonato@nonatoluiz.com.br Forma Criativa