Nonato Luiz

Senão Vejamos: era uma tarde absolutamente comum. Uma tarde tão demasiadamente comum feito uma unha encravada. Não passava disso, confesso. Um começo de tarde insípido, anódino, inodoro. Até o sol se mostrava, no azul vulgar de um céu, com cara de abestado. Nenhuma poesia no ar e as musas de plantão pareciam um bando de prostitutas cansadas de um cabaré de terceira. Sai de casa com a única perspectiva de rever os amigos de sempre, beber as cachaças de sempre, ouvir e contar as piadas de sempre no sempiterno Clube do Bode.

Me fui, cheguei como quem está prestes a partir na rua Dom Joaquim quase esquina com a Monsenhor Tabosa. Adentro o etílico recinto, invado, como um huno, o território lírico da livraria Livro Técnico. No gabinete do Sergio Braga a festa já começara a muito tempo. Lá estão, enfileirados, cada um com seu copo na mão, Lustosa da Costa, Erle Rodrigues, Juarez Leitão, Roberto Farias, Tassinho, uma plêiade de amigos sem os quais o oficio de viver seria muito chato. Tutti buona gente, tutti Fratelli, como diria o velho carcamano do meu pai.

Eis que, senão quando, a porta se abre e me deparo com Nonato Luiz e seu novo parceiro, Marco Túlio. Depois da sexta dose de Douradinha Vinte Anos, Nonato pede um violão. Lá me vou ao banheiro e de lá cato um sambado pinho, gasto de ser tão maltratado pelo amigo Falcão, humorista e o maior anão do aprazível município de Pereiro. Nonato Luiz nem pisca ou negaceia. Dá uma providencial afinada na viola e a poesia que escorre de seus dedos preenche todos os espaços de uma tarde que começa a ficar linda feito mulher recém saída do banho.

Vendo e ouvindo Nonato Luiz tocar, só me resta chegar à óbvia conclusão: Nonato Luiz é um irremediável gênio. A sua música não está nos livros, não cabe em pautas. A música de Nonato Luiz é um magnífico presente dos deuses. E o jeito simples dele, o sorriso moleque estampado no rosto de passado suburbano e sua fulgurante genialidade assume uma aparência franciscana. Só o Clube do Bode pode me proporcionar esse fulgaz, raro instante de beleza em que me quedo farto de tamanha poesia. Tenho os olhos rasos d’água vendo e ouvindo Nonato Luiz tocar num recital íntimo que transfigura a tarde chata. Nonato Luiz é um gênio, que mais posso dizer?

Airton Monte
Cronista do Vida e Arte
Jornal O Povo - Fortaleza - CE
Terça-feira, 13 de junho de 2006.

 
  Nonato Luiz: nonato@nonatoluiz.com.br Forma Criativa