Cordas brasileiras

O violonista cearense Nonato Luiz e o bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda subiram ao palco do Teatro Rachel de Queiroz na primeira noite do Festival Jazz & Blues. Apresentações permeadas pela riqueza da música brasileira

No palco, Nonato Luiz abriu a programação do Teatro Rachel de Queiroz com a habitual categoria. Mostrando entusiasmo por finalmente estar se apresentando no evento cearense, Nonato optou por um repertório diversificado, mostrando as características que o fazem ser requisitado, ano a ano, para concertos em festivais europeus, mais voltados ao universo do violão. Uma síntese da obra e da trajetória de um músico experiente e de técnica impressionante, mas, acima de tudo, de personalidade própria nos fraseados, bordões, acordes e ritmos que trafegam pelo popular sempre com uma atmosfera de erudição.

Foi assim, por exemplo, no medley dedicado a obras de Luiz Gonzaga, como ´Juazeiro´ e ´Assum preto´, em que se ressalta o Nonato arranjador, de releituras desafiadoras ao intérprete. Com casa cheia e uma boa qualidade de som, Nonato não escondia a satisfação. ´É um prazer tocar para uma platéia assim, não é para qualquer um. Dá vontade de tocar até de manhã´, disse, antes de chamar ao palco o jovem percussionista Anderson Silva. ´Menino que toca como gente grande´, ressaltou o violonista, mostrando entrosamento com o desenvolto pandeiro do garoto, para aplausos entusiasmados na execução de peças como ´Mangabeira´, homenagem de Nonato a sua cidade natal, e ´Carioca´, referência aos muitos anos em que viveu no Rio de Janeiro.

O virtuosismo de Nonato como intérprete e seus méritos como compositor foram ressaltados também nas cordas soltas do ´Choro acadêmico´, assumindo ares de samba no pandeiro de Anderson, que ganhou espaço para um solo e mais aplausos. Novamente o arranjador é o destaque nas releituras de Nonato para Milton Nascimento e Villa-Lobos, do lírio ao percussivo na ´Melodia sentimental´. Outra faceta do compositor, os temas que ganharam letra para se tornar canções, foi representada com o ´Baião cigano´, na voz do parceiro Fausto Nilo, que com boa dose de coragem manteve a participação especial, mesmo severamente rouco e chegando a errar a letra nos refrões. ´Eu falei demais ontem. Guaramiranga, muitos amigos, muita conversa na noite anterior. Mas dissemos´, comentou Fausto. Encerrando seu show, Nonato Luiz convida o público a cantar com uma bela releitura para ´A felicidade´, de Tom e Vinicius. Com direito aos efeitos percussivos e à mão direita emulando uma bateria de escola de samba. Bamba Nonato!



Dalton Moura
Jornal: Diário do Nordeste, Caderno 3
Data: 06 de fevereiro de 2008

 
  Nonato Luiz: nonato@nonatoluiz.com.br Forma Criativa